O Pessimista.

Cartas não enviadas, poesias, pensamentos, observações, crônicas e muito blá, blá, blá.

16/12/09

Querido Oswaldo,

 

São muitas as horas que me angustiam. Sinto durante o dia, em vários períodos, que estou na prancha da loucura.

Vejo-me jogado num sofá velho, num domingo à tarde. Justamente aquela hora que as mães dão banho nas crianças. Eu não tenho quem me banhe.

Penso em coisas que ninguém nunca saberá.

Muitas são as horas de consciência da solidão, e cada vez mais escassas as ilusões de um sono reparador.

Não é que eu queira me afundar de vez nessa lama que eu mesmo criei. Talvez ela, a lama, já faça parte de mim. Estou derretendo, Oswaldo. Esse calor só me irrita.

Não sou como a maioria dos cariocas, talvez nem seja a maioria, não sinto conforto algum no verão.

Oswaldo, você sempre diz as coisas certas, ao menos elas me chegam no momento exato. Nem suas palavras hoje, salvariam a pátria.

Gostaria de escrever uma grande obra, um grande livro, um filme, de ter um filho… Ao menos teria a quem dar banho. Mas nada sai. Nem entra.

Estou afundando, Oswaldo. Só que dessa vez não me debato. Descobri uma beleza em ser apenas eu. Em ser apenas parte dessa sujeira toda.

Não tenho uísque em casa, a cerveja acabou. Não tenho companhia. A não ser a minha, é claro. O que só faz aumentar essa ausência brutal.

Com certeza você não receberá essa carta. Amanhã me perguntará como foi o domingo. Direi que foi ótimo!

 

 

criado por davidgarnie    19:19 — Arquivado em: Sem categoria

7/12/09

Tarde.

  

 

 

 

É sempre tudo “quase”.

Esse eterno “onde”?

Angústia sem nome

Tardes quentes na companhia do telefone

 

Sempre essa água salgada

Vidro de perfume

Sapato na janela.

Pedra e vidraça.

 

Sempre “nunca mais”

Daqui a pouco, quem sabe?

 

A praça vazia…

 

O passado.

Ardido e pesado…

Vontade sem fome.

 

É sempre tarde. Sempre ontem

No meu pensamento

 

Meio dia cinza

Febre inata

 

Talvez eu saia

Talvez eu ande

Talvez eu morra em casa

Olhando pela janela

Esse céu pesado e distante

Que nunca desaba.

 

 

Para ler ouvindo Radiohead -  True Love Waits

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

criado por davidgarnie    20:28 — Arquivado em: Sem categoria

27/8/09

Mais do mesmo.

É pra viver
Por isso deixo
Vivo cada segundo
Uma taça quase vazia?
É hora de caminhar
Traço uma reta
Eu não olho pra trás
Faço o que deve ser feito
Nossa noite foi, de fato, ardida.
Eu não resolvo o pensamento
Então escrevo
Isso que me consome
Nós dois sabemos.
É desejo
E o que você não diz
Eu quase sei
O prazer não é o mesmo.
Eu sei que deveria ir
Mas o que eu enxergo
Só eu vejo
Eu não sei
Se sinto realmente por você
O que nem eu mereço
Até a rima me parece boa
Eu não quero mais a rua
Você me faz tão piegas…

criado por davidgarnie    2:49 — Arquivado em: Sem categoria

20/8/09

Sem Compromisso.

Palavras mudas.

O prazer de sua companhia.

Prazerosa durante minutos.

Escondida num canto.

Culpa não dita.

Em parcelas.

Amizade é isso?.

No samba

Procuro o erro.

Harmonia perfeita.

Não existe cadência

Onde fui parar, meu Deus?!

Alguém me grita:

- Pague na saída.

Só que nada era meu.

Apenas essas palavras

Que eu fiz pra me lembrar

Que você já me esqueceu.

criado por davidgarnie    12:30 — Arquivado em: Sem categoria

16/6/09

Halley

Ele me disse:

- Você sabia que o cometa Halley é visível da Terra a cada setenta e seis anos?

E continuou:

- Isso quer dizer que sua próxima aparição será no ano de dois mil e sessenta e um.

Para ser mais exato, no dia vinte e oito de julho.

Não respondi. Fiquei pensando o porquê dessa informação, já que estávamos numa mesa de bar, discutindo sentimentos.

Ele não parou por aí, e sorrindo fechou com chave de ouro:

- O que você acha que estará fazendo nesse dia?

Fiz que não ouvi, afinal setenta e seis anos pode não ser nada para o tempo evolutivo na Terra, mas definitivamente era muito pra mim. Não sabia mais quantos minutos ainda agüentaria, ali, sentado naquela mesa.

Ele insistiu:

- É que fico muito curioso em saber como o tempo é relativo, como algumas coisas não mudam…

Eu poderia ter explicado o pouco que sei sobre astronomia. Poderia falar do periélio, desse tal cometa, poderia afirmar que nem o cometa é o mesmo que passou da última vez, provavelmente teria sofrido mudanças. Mas não quis render muito nesse assunto.

Eu disse:

- Eu estarei com setenta e nove anos, isso é, se estiver vivo. Pode ser que o cometa enterre a todos nós!

Ele sorriu, com aquele sorriso que eu conhecia bem, como quem diz:

-Você estraga toda a magia e poesia da coisa!

Sorri de volta com enorme satisfação.

Um silêncio absoluto depois disso tomou conta da mesa. Fiquei pensando qual seria seu próximo assunto… Algo como a matança de baleias, ou quem sabe apenas pedisse a conta. Resolvi esperar com cara de paisagem. Paisagem bem árida, sabe?

Ele então bufou:

- Outra bebida?

Fiz que sim. Quase de má vontade.

Fiquei culpado e então resolvi melhorar o rumo das coisas:

- E você? O que pretende fazer nesse dia?

- Pretendo pensar exatamente no dia de hoje, em que estou com você, falando sobre o Halley. Somente neste momento!

Por um momento quase me deixei levar. Mordi já na saída da boca, algumas palavras traiçoeiras. Quase disse que provavelmente ele não lembraria, ou talvez falasse sobre o Halley com outras pessoas, mas não disse.

Ele então continuou:

- Você consegue imaginar, nesse momento, exatamente agora, onde o cometa está?

- Não! Não faço idéia- respondi.

-O tempo daqui não é o mesmo tempo de lá! São tempos diferentes, entende? Nunca saberemos. Concluiu.

- E o nosso tempo? Perguntei, enchendo-me de coragem.

Voltou a sorrir e respondeu:

- Nosso tempo é agora e agora e agora e acabou de passar.

 

 

 

 

 

criado por davidgarnie    4:23 — Arquivado em: Sem categoria

10/6/09

Não é que eu não precise de ninguém,

É que me sinto só o tempo inteiro.

Tenho excelentes amigos, uma boa analista,

Muitos livros não lidos. Penso em comprar um peixe,

Fazer yoga, virar vegetariano, parar de beber, de fumar,

Dormir cedo e não me arrepender.

Sinto como se cada vez mais as palavras valessem menos.

Sim, tenho experiências de entendimentos silenciosos,

Mas esses são raros ou únicos.

Tive a sorte ou o azar de encontrar o meu.

Se entender no silêncio é tão mais perigoso…

Quase como deixar a porta aberta para o assaltante entrar.

Sinto-me cada vez mais inacessível, e tenho tomado certo gosto por isso.

É como seu fosse uma estrela de um filme qualquer, que ninguém vê.

Às vezes nem eu!

Na verdade cansei de falar.

Agora quero que adivinhem!

E seria tão bonito, eu, num dia daqueles, numa praça, esperando o ônibus,

Abordado por um estranho, que me diria:

- Você precisa urgentemente voltar pra casa!

criado por davidgarnie    4:37 — Arquivado em: Sem categoria

4/6/09

Terça-Feira.

E se eu te pedisse pra largar tudo?

Você largaria?

Se eu falasse: -Vamos! Já passamos da hora!

Acompanharia meu passo?

Se confessasse numa terça-feira à noite

Que sinto sua falta.

Que isso dói!

Entenderia?

E se afirmasse que sei quando você pensa em mim?

Se afirmasse que me entristeço com sua melancolia?

Que você é quase, sempre, uma figura imaginária ao meu lado,

Na madrugada.

E se tudo isso fosse desculpa pra que você voltasse?

Voltaria?

E se fosse verdade?

Qual seria a diferença?

Se você não me conhece                   

E eu não sei mais esperar.

Agora é tarde!

 

 

 

criado por davidgarnie    1:29 — Arquivado em: Sem categoria

13/5/09

Chá das cinco.

Pare com essas atitudes
Que me levam para outro lugar.
Basta um sorriso seu
Para encher-me de vida
Mudar o que estava ruim
Essa falta de ar, essa ferida.
Mas se não conseguir parar,
Siga-me.
No sol ou chuva.
Ruas e avenidas…
Eu só quero ter você assim
Preso por vontade
Sem precisar ferir o que é seu,
E que às vezes, sempre, me invade.
Então fiquemos juntos
Seja por um ano, ou apenas essa tarde
Qual a diferença entre uma hora ou um minuto,
quando tudo é pouco e nada cabe?

 

David Garnié e Jonas Brandão

criado por davidgarnie    17:37 — Arquivado em: Sem categoria

17/4/09

Ponto.

Silêncio! Hoje não quero falar nem escrever.

Resolvi o que deveria ter resolvido há tempos.

Mas como dizem: Antes tarde do que nunca.

Mas às vezes, sempre, é muito tarde.

Não adianta ouvir música francesa nem beber uísque…

Como diria uma amiga: Isso não é eloqüente.

Mas, peço: Não me ligue e nem adivinhe meus pensamentos!

Bebamos em bares distintos, e se possível, bebidas diferentes.

criado por davidgarnie    4:08 — Arquivado em: Sem categoria

7/4/09

Gim-Tônica

Andava depressa. Havia dito que não iria, que esquecesse. Era tudo meio claro e meio escuro. Não iria mais ceder à criança que pedia colo ou ao cego que precisava atravessar a rua. Cru, porém inteiro, atravessava as pistas rumo ao não-encontro. Não era de um telefonema que precisava naquele momento, muito menos de uma palavra de conforto. Queria o gesto. A cama esticada, lençóis vermelhos. Lençóis brancos enfatizam o erro. E assim, nem na rua, nem na calçada, segui.

Olhava e só via gente. Nunca vou esquecer a lua azul daquela noite. Tentei ser firme. Consegui determinada hora, mas não bastou. Sentia sua presença, mesmo distante quilômetros. Lembrei que os tubarões percebem uma gota de sangue no oceano. Pensei que águas-vivas matam. Quanta precisão.

Que amargo esse gosto de fim de noite… Pior o acordar, esse “foi” que não deveria ter sido. Esse cigarro mal fumado ou aceso ao avesso.

Cruzei o bar e pedi um gim-tônica. Sem cerimônia. Perdi algum tempo olhado o copo e pensando nas propriedades milagrosas do limão.

Quando os sentidos rodavam e já não se sabia onde terminava um e começava outro, senti que era hora. Ainda com sua voz no meu corpo, titubeei. A voz é a pessoa ao contrário, vem de dentro, aveludada eu diria. Entre amendoins e panfletos busquei uma mesa. Sentado fiquei a espera de algo que não aconteceria nunca.

criado por davidgarnie    3:07 — Arquivado em: Sem categoria
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